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Um papo com: Lucas Carvalho, Fundador da Jundu, uma plataforma que certifica e comercializa créditos de CO₂

"A restauração de florestas é absolutamente urgente! Temos visto o impacto das mudanças climáticas e como a floresta pode atuar de maneira muito significativa na mitigação destes efeitos."



1. Qual é a sua formação e experiência em soluções baseadas na natureza (SBN)?


Logo após começar a minha graduação em geografia, entrei para o mundo do mercado de carbono. Logo após um ano já comecei a trabalhar com projetos voltados para a restauração de florestas nativas, sempre com este vínculo com o potencial estoque e geração de créditos de carbono.


Durante quase 10 anos fui diretor técnico da ONG Iniciativa Verde e acompanhei de perto muitos projetos de restauração, enfrentando todos os desafios do setor, mas também entendendo as crescentes oportunidades em financiamento para este tipo de projeto. Concentrei minha atuação justamente no desenho de projetos e viabilização econômica da restauração, unindo diferentes tipos de financiamento.


Nestes anos de experiência acompanhei uma fase na qual a restauração de florestas tinha um mercado muito restrito, principalmente relacionado a compensações obrigatórias e algumas iniciativas filantrópicas, ou voltadas para a compensação de emissões de carbono, como na proposta da Iniciativa Verde.


Nos últimos anos, temos acompanhado uma atenção muito maior ao tema, especialmente como uma solução importante para a remoção de carbono da atmosfera e mitigação das mudanças climáticas. Isso tem trazido uma maior demanda, mas o setor ainda sofre dos gargalos de mão de obra, insumos e área disponível, além de grandes dificuldades técnicas de implantação e monitoramento dos projetos. É justamente aí que florescem também as oportunidades!


2. Como você descreveria a proposta de valor da sua organização para alguém novo no setor?


Fundamos, em 2021, a Jundu Climate, uma startup que tem como objetivo apoiar projetos que acelerem a transição para a economia de baixo carbono, por meio da certificação de créditos de carbono, especialmente para projetos de restauração de florestas nativas, que hoje possuem uma grande barreira de entrada no mercado de carbono, em função dos altos custos de certificação e implementação dos projetos.


3. Quais são os números ou insights de mercado que mais entusiasmam você no espaço de SBN?


A restauração tem um potencial muito grande de contribuição na mitigação das mudanças climáticas. Segundo o IPCC, esta é uma das principais estratégias de remoção de carbono a serem implementadas nas próximas décadas.


Não é a toa que a ONU definiu a década de 2021-30 como a década da restauração. Ou seja, cabe ao mercado buscar as soluções para fomentar projetos de restauração. Acredito que o mercado de carbono seja uma grande oportunidade para darmos escala à restauração.


Ou seja, o potencial de remoção de carbono e de todos os benefícios da restauração me motivam muito a trabalhar com este tema e a encará-lo como uma das melhores soluções para a crise climática que estamos enfrentando.


Desenvolvemos, junto com Iniciativa Verde e Fábrica Biológica, um projeto de restauração de 100 hectares na Fazenda da Toca, que contou com um modelo inovador de financiamento, com uma composição de atores, e com muita inovação técnica na operação do projeto e na certificação de carbono, com o modelo da Jundu. O projeto está em pleno vapor e temos obtido sucesso na performance da floresta, mesmo com muitas dificuldades no processo.


4. Quais são as principais dificuldades ou travas que, se resolvidos, podem e têm contribuído para o crescimento das SBN?


A restauração possui várias barreiras muito significativas. Acredito que dar escala para a restauração ainda é um grande gargalo. Existem barreiras mais “fáceis” de serem resolvidas, como por exemplo a escassez de insumos. Acredito que com uma maior demanda, naturalmente haverá também uma oferta maior de insumos para a cadeia da restauração. Claro que isso pode ser uma dificuldade muito grande para investimentos de curto e médio prazo, mas acredito que o mercado vai se consolidar.


Porém, a barreira de execução ainda é, na minha visão, a maior deste mercado. Há escassez de mão de obra e as dificuldades climáticas e técnicas de implantação são muitas vezes instransponíveis. Algumas regiões, por exemplo, estão ficando mais secas, com períodos maiores de estiagem. Isso traz muito mais risco para os projetos e dificuldades de implantação. Por exemplo, o projeto de restauração na Fazenda da Toca. Lá estamos sofrendo estiagens mais severas e, mesmo com medidas mitigadoras, isso traz mais risco e mais custos de manutenção.


Hoje, com mais atenção e financiamento, a pesquisa irá trazer muitas inovações para o setor. Mas, o campo ainda tem questões estruturais que serão entraves importantes para trazer escala à restauração.


5. Você pode ajudar a esclarecer ou contextualizar um termo no espaço das SBN que você acha que é frequentemente mal compreendido?


Acredito que seja importante entendermos que a restauração florestal é muito mais do que plantar árvores. Este é um conceito que já é hoje muito mais compreendido, mas é fundamental entendermos que a restauração envolve um trabalho bem maior do que apenas o plantio de mudas. Recompor uma floresta é trazer suas funções e sua complexidade de volta, com diversidade de espécies. Este processo leva muitos anos e precisa de uma atenção constante, bem como um esforço muito grande de implantação e manutenção.


Toda esta complexidade deve ser compreendida pelo mercado para que o preço do carbono possa refletir o trabalho por trás. Somente desta forma, poderemos mudar a chave e começar a trazer escala para a restauração.


6. O que você gostaria de compartilhar com a comunidade NatureHub Brasil?


A restauração de florestas é absolutamente urgente! Temos visto o impacto das mudanças climáticas e como a floresta pode atuar de maneira muito significativa na mitigação destes efeitos. Ou seja, não é apenas uma forma de remover carbono na atmosfera, mas também de tornar os ambientes mais resilientes aos impactos das mudanças climáticas.


O mercado de carbono deve assumir este desafio e mesmo o risco de investir em restauração. É uma ilusão acharmos que haverá como plantar florestas sem riscos, portanto acredito que a maturidade deste setor chegará quando entendermos que restaurar é preciso, mesmo que tenhamos que correr riscos para que este processo avance.


 
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