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Visão de Fernanda Centeno Co-Fundadora da C3 Ambiental: Como incluir pequenas propriedades rurais no mercado de carbono?

"Precisamos ter em mente que as SBN têm um enorme potencial para se tornar uma ferramenta poderosa (e talvez a única) a considerar os impactos ambientais decorrentes das atividades humanas e contextualizar a economia global em um mundo onde os recursos naturais são limitados."

homem jovem sorrindo em um fundo florido

1. Qual é a sua formação e experiência em soluções baseadas na natureza (SBN)?


Sou bióloga de formação com mestrado em Biotecnologia pela USP, doutorado em Zoologia pela UNESP/Rio Claro e pós-doutorado em Ecologia pela University of Otago (Nova Zelândia). Sempre fui apaixonada por sapos, cobras e lagartos e acabei então me aventurando no fantástico mundo da herpetologia. Estudei a história natural de anfíbios e répteis, realizei levantamentos de herpetofauna nos diversos biomas brasileiros, sempre focada na pesquisa científica voltada para a ecologia de comunidades e a conservação de espécies.


Ao longo da minha trajetória acadêmica, no entanto, fui observando diversos declínios populacionais de sapos, principalmente devido à fragmentação de habitat e o aumento da temperatura global, o que me levou a buscar, no pós-doutorado, respostas para algumas perguntas sobre o efeito das mudanças climáticas em anfíbios.

Foi neste momento que, ao me aprofundar sobre os problemas da pressão antrópica na degradação dos ecossistemas, decidi largar a academia em busca de ações mais efetivas pela conservação da biodiversidade e no combate às mudanças climáticas. Co-fundei então a C3 Ambiental com o intuito de levar o meu conhecimento científico para o meio rural visando compatibilizar a conservação da natureza e a vida no campo com o uso racional dos recursos. Desde então, tenho me dedicado à elaboração e desenvolvimento de projetos socioambientais que têm na essência as Soluções Baseadas na Natureza.


Com ações de conservação de florestas, restauração ecológica e serviços de adaptação climática, meu trabalho, hoje, se resume a levar benefícios sociais e econômicos às comunidades rurais mitigando os riscos ambientais e escassez ecológica, e a promoção de benefícios para a biodiversidade com base nas SBN.


2. Como você descreveria a proposta de valor da sua organização para alguém novo no setor?


A C3 Ambiental atua de maneira inteligente e sustentável na promoção de uma economia mais verde: baixa emissão de carbono, eficiente no uso de recursos e socialmente inclusiva. E com o intuito de conciliar a conservação dos recursos naturais, desenvolvimento rural e crescimento econômico do país, criamos um projeto inovador de conservação que veio para democratizar o mercado de carbono, o projeto BioMA Carbono. É uma iniciativa que visa colocar em prática ações dedicadas à conservação de matas nativas e regeneração de áreas degradadas com potencial para geração de serviços ecossistêmicos, bem como a promoção de incentivos de valorização de trabalhadores rurais que adotem hábitos mais sustentáveis no uso da terra. Aliando responsabilidade socioambiental e inovação tecnológica, o programa investe em SBN e no mercado de carbono para combater as mudanças climáticas e promover o desenvolvimento sustentável do meio rural. Hoje, o BioMA Carbono tem sido desenvolvido na Mata Atlântica, mas em breve a mesma abordagem será aplicada também no Cerrado.


Até onde sabemos, este é o primeiro projeto a incluir pequenas propriedades rurais no mercado de carbono florestal no Brasil, e isso nos diferencia de outros desenvolvedores de projetos. Individualmente, pequenos produtores rurais não teriam como cobrir os custos de projeto e certificação, portanto, nossa solução democratiza o acesso ao mercado de carbono. Além disso, há um estímulo de geração de renda alternativa para os proprietários rurais por meio das atividades de conservação e restauração das florestas nativas, resultando no desenvolvimento econômico rural com equidade socioambiental.


Nossa proposta também busca levar uma nova perspectiva às comunidades rurais onde os serviços ecossistêmicos prestados pela floresta nativa, como o sequestro de carbono, são reconhecidos e valorizados. A valoração destes serviços, por sua vez, tem o potencial de mudar a perspectiva que agricultores têm sobre a floresta nativa: de um passivo a um recurso a ser protegido. Com isso, criamos a oportunidade de colocar o Brasil como referência em produtividade sustentável.

3. Quais são os números ou insights de mercado que mais te animam no espaço de SBN?


Acredito que o recente desenvolvimento de metodologias inovadoras que possibilitam a emissão de créditos de carbono a partir de projetos de conservação de florestas é particularmente relevante para a ascensão das SBN. Este é o caso da metodologia utilizada no BioMA Carbono, nosso projeto de conservação da Mata Atlântica, a metodologia SCM006 – Methodology for Conservation of Areas of Biodiversity Importance da Social Carbon, uma certificadora de carbono que tem como foco as SBN. Nestes projetos, os créditos de carbono são quantificados pela taxa anual de sequestro de carbono da floresta nativa existente ao invés de usar linhas de base históricas das taxas passadas de desmatamento, como ocorre no caso de projetos REDD+. Desta forma, a floresta passa a ser valorizada pelo serviço ecossistêmico prestado, no caso o sequestro de carbono, e isso é fundamental no combate ao desmatamento e perda de biodiversidade. Além disso, os créditos de carbono gerados normalmente estão associados a um maior valor agregado por se tratar de projetos socioambientais, algo que o mercado de carbono vem valorizando cada vez mais nos últimos anos. Posso ver as SBN evoluindo numa direção holística, onde os diferentes serviços ecossistêmicos fornecidos pelos ambientes naturais, como as florestas por exemplo, podem ser quantificados e valorizados, e a criação de metodologias que abordam a temática de forma efetiva é um primeiro passo importante neste sentido. Ademais, as crescentes demandas do mercado, a urgência pela preservação ambiental e a busca pelo bem-estar social vêm auxiliar na valorização da floresta em pé e de todos os serviços ecossistêmicos prestados por ela, trazendo luz à importância das SBN nas questões e desafios socioambientais.


4. Quais são as principais dificuldades ou travas que, se resolvidas, podem e têm contribuído para o crescimento das SBN?


As Soluções Baseadas na Natureza têm a difícil tarefa de enfrentar uma série de questões e problemas socioambientais. Embora tipicamente associadas às mudanças climáticas, à crise da biodiversidade e riscos de desastres, as SBN não estão restritas a este domínio e abordam também diversos desafios sociais tais como a saúde humana, segurança alimentar, segurança hídrica, etc. Recentemente, o conceito vem ganhando força em políticas internacionais e nos discursos empresariais. No entanto, é fundamental que, em meio à uma infinidade de crises enfrentadas pela humanidade, compreendamos até que ponto as SBN podem dar subsídios para os problemas ambientais, sociais e econômicos do mundo. Apesar do consenso em torno do papel e do valor das SBN no combate às mudanças climáticas, suporte à biodiversidade e proteção dos serviços ecossistêmicos, há ainda um conjunto de questões, preocupações e barreiras importantes que precisam de atenção para que o potencial das SBN possa ser consolidado e ampliado. Além de questões de governança que dificultam a adoção de SBN e do subinvestimento decorrente de abordagens e modelos financeiros deficientes para uma adequada avaliação econômica, um dos pontos mais críticos, ao meu ver, diz respeito à sua confiabilidade.

Existe hoje uma carência de indicadores e métricas apropriados para avaliar a eficácia das intervenções baseadas na natureza, o que coloca em dúvida a relação custo-efetividade em comparação com outras alternativas. Além disso, é preciso focar nas sinergias entre as diferentes soluções propostas e mudar a forma como investigamos e comunicamos a interdisciplinaridade dentro das SBN. Neste sentido, o desenvolvimento de abordagens integradas que conectem políticas climáticas, setor financeiro e pesquisa científica visando salvaguardas, padrões e diretrizes mais apropriados, é essencial para o sucesso das SBN.


5. Você pode ajudar a esclarecer ou contextualizar uma palavra/conceito no espaço SBN que você acha que é frequentemente mal compreendido?


Acho que há muito ceticismo entre os ambientalistas sobre o papel e os impactos das Soluções Baseadas na Natureza. Parte disso é plenamente justificada porque podemos ver atores entrando no mercado com a simples finalidade de desviar as SBN do seu propósito, em direção à criação de ativos puramente especulativos. No entanto, precisamos ter em mente que as SBN têm um enorme potencial para se tornar uma ferramenta poderosa (e talvez a única) a considerar os impactos ambientais decorrentes das atividades humanas e contextualizar a economia global em um mundo onde os recursos naturais são limitados.


6. O que você gostaria de compartilhar com a comunidade NatureHub Brasil?


Hoje no Brasil, país que até pouco tempo ocupava o quarto lugar no ranking de emissões globais históricas de CO2, o desmatamento se tornou o principal setor emissor da economia brasileira. Portanto, é imperativo que haja uma mudança de paradigma no meio rural para que o Brasil cumpra com sua agenda climática e, isto só ocorrerá, quando a adoção de práticas mais sustentáveis no uso da terra tornar-se economicamente viável. Enquanto o modelo extrativista predatório for mais vantajoso, será extremamente difícil inverter as tendências e, neste sentido, a atuação de empresas como a C3 Ambiental, que atribui valor econômico aos serviços ecossistêmicos prestados pelas florestas nativas, é essencial. Ao mesmo tempo, grandes empresas compradoras de matéria-prima também têm um papel fundamental no desenvolvimento de modelos de produção mais sustentáveis, com transparência na cadeia produtiva, onde as boas práticas agrícolas possam ser monitoradas e valorizadas. Entretanto, um modelo eficiente de produção sustentável só vai surgir quando os serviços ecossistêmicos da natureza passarem a ser quantificados, valorizados e integrados na economia global, e as SBN têm o potencial de criar a estrutura necessária para sustentar esse tipo de modelo econômico.


 
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